sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Pelos corredores do hospital...

Hoje ao percorrer sozinha o corredor daquele hospital, lembrei-me que fez esta semana 2 anos que ele começou a fazer parte da nossa vida quase diariamente...

Tinhas tu 3 meses quando liguei para lá na esperança de que alguém nos pudesse ajudar, não me conheciam, nunca lá tínhamos ido e não tinha qualquer carta de referência de nenhum médico. Estou eternamente grata à mãe do F., a S.F., por me ter dado o número e insistir para que arriscasse. Lembro-me tão bem das palavras que ouvi do outro lado do telefone quando expus o porquê daquela chamada: "Olhe está aqui uma mãe de um bebé com quase 3 meses, que teve um AVC antes de nascer, e ela coitada queria muito tentar marcar uma consulta aqui com uma Fisiatra, acha que será possível?"... Não sou, nem nunca serei "coitada", nem eu nem tu D., mas bendito aquele telefonema. Na semana seguinte tivémos consulta e fomos logo reencaminhados para a fisioterapeuta F.S..  Só 4 meses depois começaste a T.O. com a X..

E passaram 2 anos. 2. Como? 2 anos de uma rotina esgotante, mas gratificante.

2 anos em que 4 dos 7 dias da semana o despertador toca às 6h. Parece mentira, mas não é. Tomar café, tomar banho, dar-te o leite, arranjar-te e tratar das coisas para sair. Pouco depois das 7,30h já estamos a sair de Alverca, a entrar na A1 em direcção a Lisboa. Antes das 8,30h chegamos ao H.D.E.. Fazemos aquele corredor até à Medicina Física e Reabilitação, uns dias para o ginásio da Fisioterapia, outros para o da Terapia Ocupacional, e lá estamos cerca de 1h.

1h a ver-te trabalhar. Quantas vezes te vimos chorar ali... quantas vezes me apeteceu fugir. Quantas vezes tenho que me controlar para não chorar eu... Mas desistir nunca.

Pelas 9,30h estamos a sair de lá, a regressar para Alverca, para te levar a casa da S. e ir para a clínica. Nunca mais cheguei a horas. Começo a trabalhar de terça a sexta já acordada há mais de 4h... mas tento chegar sempre com um sorriso, tento nunca levar o meu cansaço físico e psicológico lá para dentro.

E o que eu me sinto cansada... nunca mais fui a mesma... mas mesmo que fosse possível não mudaria nada. Sempre dissemos que por ti faríamos tudo e isso nunca vai mudar.

És o filho que qualquer pessoa desejaria ter. És a criança mais doce e mais feliz deste mundo meu amor. Todos te adoram.

E se sou uma pessoa melhor hoje do que era antes de nasceres? Tenho a certeza que sim.

domingo, 20 de outubro de 2013


Parabéns pelos teus 2 aninhos D.!
 
21 de Outubro de 2011, sexta-feira, 36 semanas e 2 dias de gestação, Hospital CUF Descobertas

9h - Começo a fazer novo CTG. Tinha realizado um 3 dias antes, mas como tinham dito que irias nascer muito grande, com cerca de 4kg, a Dra. A. pediu-me que fosse ter com ela ao hospital, para fazermos nova eco e avaliar o teu tamanho, pois “se fosses de facto muito grande, punhamos-te cá fora antes do tempo”, segundo ela.

CTG sem grandes alterações, apesar das contrações fortes e frequentes que já sentia, e mesmo depois de ter comido um croissant com chocolate.

10,30h – Sou chamada para a ecografia, o papá entrou comigo. Quando a Dra. S. encostou a sonda do ecógrafo à tua cabeça o meu chão desabou…

(Choro agora como chorei naquele dia, mas não vou parar aqui, há dois anos que tento relembrar-me de tudo o que se passou e pô-lo cá para fora…)

Tinhas uma margem de líquido dentro da tua cabeça, líquido que não estava lá na semana antes, líquido que não devia lá estar. Descontrolei-me. Sabia o que estava a ver. Comecei a chorar compulsivamente e pedi-lhe para me dizer o que podia ser aquilo, como se eu não soubesse, ou não quisesse acreditar. Pediu-me calma, disse que estava ali só para avaliar o teu tamanho e que depois a Dra. A. é que iria falar comigo. Lembro-me do papá me apertar as mãos, me limpar as lágrimas e me pedir calma, pois nem a ecografia me conseguiam fazer naquele estado.

Saímos para o corredor encharcados em lágrimas e ficámos à espera que alguém viesse falar connosco. Estava em pânico. A gravidez estava a ser perfeita, tu eras tudo o que mais desejávamos na vida e alguma coisa estava mal contigo, não conseguíamos acreditar.

Reuniram logo vários médicos no hospital e a Dra. A. ainda me disse que iríamos aguardar o fim de semana, e que já estava marcada uma ressonância magnética para nós, segunda-feira às 19h. Chorei ainda mais, não queria acreditar que tu podias estar mal e que iria para casa esperar mais de 48h para saber o que se estava a passar…

Lembro-me também vagamente de haver alguma hesitação entre ficar ali ou ir para a MAC, mas nem sei em que altura foi.

Pouco depois veio finalmente uma decisão. Lembro-me de ela nos chamar a uma salinha, onde já estava ao telefone com o bloco de cirurgia, a marcar horas e a confirmar até que horas estava um colega anestesista, o Dr. T.. Desligou e disse “Vanessa, esse menino vai nascer ainda hoje. Vão a casa descansar um bocadinho, não come nada, vão buscar os sacos e às 15h é internada e preparada para a cesariana, que será por volta das 18h, porque quero que ainda seja o Dr. T. a fazer a epidural.”

Não estávamos preparados para nada do que se passou naquele dia. Tínhamos saído para fazer uns exames de rotina e para saber como tu estavas. Passados uns minutos estavam a administrar-me córticos, por causa dos teus pulmões, e eu ainda nem conseguia acreditar que ias nascer naquele dia.

12h - O papá tinha levado a mota, porque seguiria dali para o trabalho, mas acabámos por voltar os dois para casa. Vim a conduzir o jipe a chorar compulsivamente, assustada, lembro-me de fazer algumas chamadas para dizer aos avós e a alguns amigos, que as coisas não estavam bem e que ias nascer naquele dia.

As mensagens começaram a entrar… todos nos queriam dar força e diziam para acreditarmos que tudo não ia passar de um susto… Passamos essas duas horas e pouco praticamente abraçados no sofá e ainda nos lembrámos de tirar uma última fotografia da mamã grávida, a sair de casa para o hospital. Pena não ter tido tempo de gozar os meus últimos dias contigo dentro de mim, foram dos melhores meses da minha vida…

15h – O meu saco, os teus, a máquina fotográfica, a mala do papá, e damos entrada na CUF para internamento. Como é que era possível? Não era nada daquilo que tínhamos sonhado… mas já só pensávamos em ver-te, em saber o que tu tinhas. O medo era assustador. O “avô Zé” e a “avó Marion” já estavam connosco. O “avô Rui” e a “avó Dady” fizeram as malas a correr e já estavam a caminho. Eles e o teu futuro berço, que nem cheguei a ver antes de nasceres.

17h – Deitada na cama, já com a roupa do hospital, lembro-me das dores que tive quando uma “besta” (desculpa, não consigo dizê-lo de outra forma) de uma enfermeira, me tenta enfiar dois cateteres no braço esquerdo… parecia que me estava a furar os ossos… felizmente foi chamar uma colega que o fez à primeira.

Informaram-nos que ainda nessa noite, uma Dra. L. viria da MAC para te fazer uma ecografia transfontanelar, para sabermos exactamente de onde vinha aquele líquido na tua cabeça.

17,30h – Levam-me para o bloco. Devo ter ficado uma meia hora ainda no corredor à espera que a sala ficasse livre. A partir daí perdi a noção de muita coisa. Lembro-me de o Dr. T. estar lá a conversar comigo, fez-me se sentir um pouco melhor e deixou o papá assistir ao teu nascimento. Os avós chegaram de Gaia por essa hora e lembro-me de o papá ir falar com eles.

18h – Entro para o bloco. O Dr. T. explicou-me passo a passo a epidural. Só me lembro de estar a abraçar uma almofada e um pouco depois ter precisado de ajuda para me deitar, pois parecia que as pernas tinham deixado de fazer parte do meu corpo. Deu-me a escolher que grupo queria estar a ouvir quando nascesses, tinha 2 CD’s, escolhi “Coldplay”, não me lembro qual era o outro.

A partir daí lembro-me mesmo de muito pouca coisa… tinha um pano à frente, mas sei que foi tudo muito rápido.

18,39h – O papá baixa o pano e levanta-me a cabeça para te ver a sair de dentro de mim. Não me lembro quanto tempo depois te ouvi chorar. Não me consigo lembrar da tua cara, na primeira vez em que te vi. Que misto de emoções iam dentro de mim. Depois de te ouvir chorar, sei que te trouxeram até mim, dei-te um beijo na cara e levaram-te para fazer oxigénio. O papá foi contigo.

Apoderaram-se de mim umas dores na cabeça que não esqueci até hoje. O Dr. T. deu-me a mão e disse-me que era da oxitocina, que não iam durar muito tempo. E não duraram. Mantiveram o pano e a Dra. A. esteve a coser-me ainda algum tempo. Sentia e via no reflexo da porta de vidro de um dos armários.

Fui levada para o recobro. Não sabia de ti nem do papá, mas lembro-me dos avós lá terem estado comigo. Tentava mexer as pernas, mas elas só passado algum tempo começaram a responder.

Deviam ser umas 20h quando te deitaram na minha cama, quando mamaste pela primeira vez e pude finalmente sentir-te e olhar para ti. Parecias perfeito e continuávamos sem saber o que se passava dentro de ti. Avisaram-me de que terias de ir para a UCIN, porque tinhas que ficar em observação permanente… e levaram-te outra vez.

Pelas 21h devem ter-me levado para o quarto. Deixaram o papá estar ao pé de ti e assistir à ecografia, e eu fiquei à espera sozinha…

Não sei que horas eram quando ele bateu à porta e entrou, acho que devo ter adormecido uns instantes. Pensei que te trazia, mas tinhas que ficar na UCIN por causa do risco de convulsões e apneia. Aquele foi dos últimos momentos que gravei desse dia… ele estava pálido como nunca o tinha visto e lembro-me daquelas palavras como se fosse hoje: “Xixinha, vamos ter que ser muito fortes… o nosso bebé teve um AVC muito grande e afectou-lhe todo o lado direito do cérebro…”

Abraçámos-nos e chorámos…

Tiraram-nos o chão, a vida perdeu o sentido naquele momento…

2h - Só voltou a ganhar o sentido umas horas depois, quando me pude levantar e ir até ti, numa cadeira de rodas. Eras o ser mais perfeito do mundo e nós eramos os teus pais. Apetecia-me ter ficado ali toda a noite, mas não me deixaram.

Eras e és o ser mais perfeito do mundo. Muitas coisas aconteceram durante estes dois anos. Não vou falar de coisas más, de momentos difíceis, um dia ganharei coragem de escrever mais um pouco. Hoje já custou o suficiente, mas por mim e por ti, tinha que ser. Quem sabe a nossa luta constante e todas as tuas vitórias não ajudarão outros pais e outras crianças que estejam a viver o mesmo que nós.

Faz hoje 2 anos que nasceste meu amor, meu lutador! És o orgulho dos teus papás! A felicidade está no teu rosto a cada instante… festejas as tuas vitórias como se tivesses noção do que elas significam…

Ensinaste-nos tanta e tanta coisa, que só te podemos agradecer. Ensinaste-nos a nunca desistir. Obrigada por nos teres escolhido para teus pais.

És a prova de um amor incondicional! Parabéns D.!

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Orgulho em ti!

Hoje vim da Fisioterapia de coração cheio...


Não contei quantos passos deste sozinho em direcção ao papá, mas foram muitos! Fizeste a sala de espera de um lado ao outro!

As palavras da F. encheram-me de orgulho: "quase a atingir a marcha", "estamos a conseguir a simetria", "está tão direitinho"... e "estes pais têm feito um trabalho exemplar e muito contínuo, sabem sempre como colocar a mão, como o agarrar"...

Não é trabalho, é amor. Vamos onde for preciso. Somos uma família.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Os primeiros passos de muitos...

Meu amor, há tantas e tantas coisas sobre as quais preciso de falar, de ganhar coragem para deitar cá para fora... vai ter que ser devagarinho.

Ninguém sabe o dia de amanhã, mas sabemos que "ontem" o teu futuro era incerto... chegaram a dizer-nos que poderias não ser autónomo, que poderias nunca conseguir sentar-te sozinho... e hoje consegues muito mais que isso!

Todos os dias fazes novas conquistas! O nosso orgulho cresce a cada dia que passa e o teu sorriso dá-nos força para acreditar que vais ser capaz de tudo...

E ontem mostraste mais uma vez que nunca devemos desistir... ao dares os teus primeiros 2 passos sozinho em direcção ao papá!
Não interessa se dás 1, se dás 2... o que importa é que serão os primeiros de muitos! E que nós vamos estar sempre aqui, os 3, para tudo!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O dia em que soubémos que estava grávida...

Há muito que sonhavamos contigo, sempre te quisemos, deves ser dos bebés mais desejados do mundo!

Estivemos um ano e meio ansiosos, sempre à espera de um teste positivo, de um dia que insistia em não chegar... até à madrugada de 18 de Março de 2011. Um dos dias mais felizes da minha vida!
Pouco faltava para as 6h da manhã, quando me levantei, fiz mais um teste sem esperanças nenhumas e pousei-o na bancada da casa de banho. Quando voltei a olhar para ele nem queria acreditar no que estava a ver... duas riscas! Eram duas, não estava a ver mal... Acordei o teu papá, nem me interessava que horas eram, ficámos os dois delirantes... já nem dormimos, ficámos a falar até à hora em que o despertador tocou...
Para termos a certeza, fiz outro teste daqueles digitais e fui tirar sangue no mesmo dia. Não ficaram dúvidas!

Foi só o primeiro dia, mas passei-o com um sorriso... finalmente o maior sonho da minha vida ia realizar-se! Da minha não, da nossa! Foram as duas riscas mais bonitas que vi até hoje...

E foi nesse dia que começaram os 8 meses em que me senti mais bonita, em que todos os dias saía de casa feliz, sempre cheia de orgulho de te ter dentro da minha barriga!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O primeiro post...


E hoje tomei uma decisão na minha vida... começar a escrever um blog, para deitar cá para fora tudo o que se vem acumulando desde o dia 21 de Outubro de 2011. O dia em que o D nasceu, o melhor e o pior dia da minha vida. O dia em que nos tiraram o chão. O dia em que ameaçaram destruir-nos um sonho. O dia em que tudo mudou.

E no dia em que leres isto D, nunca te esqueças que te amo e que tudo vale a pena, por ti.

E que estaremos sempre juntos.

De mãos dadas para sempre...