Parabéns pelos teus 2
aninhos D.!
21 de Outubro de 2011, sexta-feira, 36 semanas e 2 dias de
gestação, Hospital CUF Descobertas
9h - Começo a fazer novo CTG. Tinha
realizado um 3 dias antes, mas como tinham dito que irias nascer muito grande,
com cerca de 4kg, a Dra. A. pediu-me que fosse ter com ela ao hospital, para
fazermos nova eco e avaliar o teu tamanho, pois “se fosses de facto muito
grande, punhamos-te cá fora antes do tempo”, segundo ela.
CTG sem grandes alterações, apesar das contrações fortes e
frequentes que já sentia, e mesmo depois de ter comido um croissant com
chocolate.
10,30h – Sou chamada para a ecografia, o
papá entrou comigo. Quando a Dra. S. encostou a sonda do ecógrafo à tua cabeça
o meu chão desabou…
(Choro agora como chorei naquele dia, mas não vou parar aqui,
há dois anos que tento relembrar-me de tudo o que se passou e pô-lo cá para
fora…)
Tinhas uma margem de líquido dentro da tua cabeça, líquido
que não estava lá na semana antes, líquido que não devia lá estar.
Descontrolei-me. Sabia o que estava a ver. Comecei a chorar compulsivamente e
pedi-lhe para me dizer o que podia ser aquilo, como se eu não soubesse, ou não
quisesse acreditar. Pediu-me calma, disse que estava ali só para avaliar o teu
tamanho e que depois a Dra. A. é que iria falar comigo. Lembro-me do papá me
apertar as mãos, me limpar as lágrimas e me pedir calma, pois nem a ecografia
me conseguiam fazer naquele estado.
Saímos para o corredor encharcados em lágrimas e ficámos à
espera que alguém viesse falar connosco. Estava em pânico. A gravidez estava a
ser perfeita, tu eras tudo o que mais desejávamos na vida e alguma coisa estava
mal contigo, não conseguíamos acreditar.
Reuniram logo vários médicos no hospital e a Dra. A. ainda me
disse que iríamos aguardar o fim de semana, e que já estava marcada uma
ressonância magnética para nós, segunda-feira às 19h. Chorei ainda mais, não
queria acreditar que tu podias estar mal e que iria para casa esperar mais de
48h para saber o que se estava a passar…
Lembro-me também vagamente de haver alguma hesitação entre
ficar ali ou ir para a MAC, mas nem sei em que altura foi.
Pouco depois veio finalmente uma decisão. Lembro-me de ela
nos chamar a uma salinha, onde já estava ao telefone com o bloco de cirurgia, a
marcar horas e a confirmar até que horas estava um colega anestesista, o Dr. T..
Desligou e disse “Vanessa, esse menino vai nascer ainda hoje. Vão a casa descansar
um bocadinho, não come nada, vão buscar os sacos e às 15h é internada e
preparada para a cesariana, que será por volta das 18h, porque quero que ainda
seja o Dr. T. a fazer a epidural.”
Não estávamos preparados para nada do que se passou naquele
dia. Tínhamos saído para fazer uns exames de rotina e para saber como tu
estavas. Passados uns minutos estavam a administrar-me córticos, por causa dos
teus pulmões, e eu ainda nem conseguia acreditar que ias nascer naquele dia.
12h - O papá tinha levado a mota, porque
seguiria dali para o trabalho, mas acabámos por voltar os dois para casa. Vim a
conduzir o jipe a chorar compulsivamente, assustada, lembro-me de fazer algumas
chamadas para dizer aos avós e a alguns amigos, que as coisas não estavam bem e
que ias nascer naquele dia.
As mensagens começaram a entrar… todos nos queriam dar força
e diziam para acreditarmos que tudo não ia passar de um susto… Passamos essas
duas horas e pouco praticamente abraçados no sofá e ainda nos lembrámos de
tirar uma última fotografia da mamã grávida, a sair de casa para o hospital.
Pena não ter tido tempo de gozar os meus últimos dias contigo dentro de mim,
foram dos melhores meses da minha vida…
15h – O meu saco, os teus, a máquina
fotográfica, a mala do papá, e damos entrada na CUF para internamento. Como é
que era possível? Não era nada daquilo que tínhamos sonhado… mas já só
pensávamos em ver-te, em saber o que tu tinhas. O medo era assustador. O “avô
Zé” e a “avó Marion” já estavam connosco. O “avô Rui” e a “avó Dady” fizeram as
malas a correr e já estavam a caminho. Eles e o teu futuro berço, que nem
cheguei a ver antes de nasceres.
17h – Deitada na cama, já com a roupa do
hospital, lembro-me das dores que tive quando uma “besta” (desculpa, não
consigo dizê-lo de outra forma) de uma enfermeira, me tenta enfiar dois
cateteres no braço esquerdo… parecia que me estava a furar os ossos… felizmente
foi chamar uma colega que o fez à primeira.
Informaram-nos que ainda nessa noite, uma Dra. L. viria da
MAC para te fazer uma ecografia transfontanelar, para sabermos exactamente de
onde vinha aquele líquido na tua cabeça.
17,30h – Levam-me para o bloco. Devo ter
ficado uma meia hora ainda no corredor à espera que a sala ficasse livre. A
partir daí perdi a noção de muita coisa. Lembro-me de o Dr. T. estar lá a
conversar comigo, fez-me se sentir um pouco melhor e deixou o papá assistir ao
teu nascimento. Os avós chegaram de Gaia por essa hora e lembro-me de o papá ir
falar com eles.
18h – Entro para o bloco. O Dr. T.
explicou-me passo a passo a epidural. Só me lembro de estar a abraçar uma
almofada e um pouco depois ter precisado de ajuda para me deitar, pois parecia
que as pernas tinham deixado de fazer parte do meu corpo. Deu-me a escolher que
grupo queria estar a ouvir quando nascesses, tinha 2 CD’s, escolhi “Coldplay”,
não me lembro qual era o outro.
A partir daí lembro-me mesmo de muito pouca coisa… tinha um
pano à frente, mas sei que foi tudo muito rápido.
18,39h – O papá baixa o pano e levanta-me a
cabeça para te ver a sair de dentro de mim. Não me lembro quanto tempo depois
te ouvi chorar. Não me consigo lembrar da tua cara, na primeira vez em que te
vi. Que misto de emoções iam dentro de mim. Depois de te ouvir chorar, sei que
te trouxeram até mim, dei-te um beijo na cara e levaram-te para fazer oxigénio.
O papá foi contigo.
Apoderaram-se de mim umas dores na cabeça que não esqueci até
hoje. O Dr. T. deu-me a mão e disse-me que era da oxitocina, que não iam durar
muito tempo. E não duraram. Mantiveram o pano e a Dra. A. esteve a coser-me
ainda algum tempo. Sentia e via no reflexo da porta de vidro de um dos
armários.
Fui levada para o recobro. Não sabia de ti nem do papá, mas
lembro-me dos avós lá terem estado comigo. Tentava mexer as pernas, mas elas só
passado algum tempo começaram a responder.
Deviam ser umas 20h
quando te deitaram na minha cama, quando mamaste pela primeira vez e pude
finalmente sentir-te e olhar para ti. Parecias perfeito e continuávamos sem
saber o que se passava dentro de ti. Avisaram-me de que terias de ir para a
UCIN, porque tinhas que ficar em observação permanente… e levaram-te outra vez.
Pelas 21h devem
ter-me levado para o quarto. Deixaram o papá estar ao pé de ti e assistir à
ecografia, e eu fiquei à espera sozinha…
Não sei que horas eram quando ele bateu à porta e entrou,
acho que devo ter adormecido uns instantes. Pensei que te trazia, mas tinhas
que ficar na UCIN por causa do risco de convulsões e apneia. Aquele foi dos
últimos momentos que gravei desse dia… ele estava pálido como nunca o tinha
visto e lembro-me daquelas palavras como se fosse hoje: “Xixinha, vamos ter que
ser muito fortes… o nosso bebé teve um AVC muito grande e afectou-lhe todo o
lado direito do cérebro…”
Abraçámos-nos e chorámos…
Tiraram-nos o chão, a vida perdeu o sentido naquele momento…
2h - Só voltou a ganhar o sentido umas
horas depois, quando me pude levantar e ir até ti, numa cadeira de rodas. Eras
o ser mais perfeito do mundo e nós eramos os teus pais. Apetecia-me ter ficado
ali toda a noite, mas não me deixaram.
Eras e és o ser mais perfeito do mundo. Muitas coisas
aconteceram durante estes dois anos. Não vou falar de coisas más, de momentos
difíceis, um dia ganharei coragem de escrever mais um pouco. Hoje já custou o
suficiente, mas por mim e por ti, tinha que ser. Quem sabe a nossa luta
constante e todas as tuas vitórias não ajudarão outros pais e outras crianças
que estejam a viver o mesmo que nós.
Faz hoje 2 anos que nasceste meu amor, meu lutador! És o
orgulho dos teus papás! A felicidade está no teu rosto a cada instante…
festejas as tuas vitórias como se tivesses noção do que elas significam…
Ensinaste-nos tanta e tanta coisa, que só te podemos
agradecer. Ensinaste-nos a nunca desistir. Obrigada por nos teres escolhido
para teus pais.
És a prova de um amor incondicional! Parabéns D.!
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